Em meio a tantas “lives”, “webnars”, fóruns e muito achismo, a única certeza é a de que pouco sabemos de concreto sobre como enfrentar a pandemia causada pelo novo coronavírus e qual futuro se apresentará aos atores econômicos ao fim da pandemia. De acordo com o professor da área de Estratégia Pública da Fundação Dom Cabral (FDC) Paulo Vicente, este não é momento para cravar certezas, mas é possível traçar cenários – alguns mais, outros menos auspiciosos – diante de mudanças que já se tornaram irreversíveis. A escalada da digitalização da economia é, talvez, a mudança mais visível. Sem poder sair de casa, as pessoas ingressaram, definitivamente, no mundo das compras e do trabalho via internet. Seja a partir de ferramentas rudimentares ou totalmente integradas ao que existe de mais moderno para proporcionar o mais alto índice de conectividade; confiando ou não na segurança da rede; uma massa quase incalculável de pessoas agora faz compras e trabalha on-line e isso muda, definitivamente, o modo como a vida funciona. E essa mudança não se limita à forma de atender a demanda do cliente ou do empregador, mas modifica, entre outros pontos, a comunicação e a cadeia logística de todo o setor produtivo. “O certo é que teremos um novo normal, não vamos voltar ao que éramos antes. Dentro desse redemoinho é claro que existem coisas boas e devemos escolher ficar com elas. A redução dos deslocamentos é uma delas. Não só pelo tempo economizado, mas porque vamos ter menos poluição também. O teletrabalho se encaixa nisso. Muitas empresas tinham resistência, mas estão percebendo que conseguiram produzir mantendo a qualidade nessa realidade. Teremos que fazer um ajuste nas nossas rotinas. A questão do comando e controle será diferente, por exemplo, mas já conseguimos perceber que talvez não seja esse o ponto que garante a eficiência”, explica Vicente.

Nesse contexto deverão ser os pequenos negócios os mais afetados, principalmente na fase aguda da crise. Ainda que tenham ao seu favor a agilidade permitida por estruturas mais leves, com tomada de decisão mais rápida, têm no fluxo de caixa o maior entrave. Sem conhecimento técnico e capacidade de investimento, se viram impedidos de abrir as portas de um dia para o outro e tendo praticamente como única opção atender remotamente. Para o COO da Propz, Israel Nacaxe, as restrições de deslocamento aceleraram a digitalização da vida de boa parte da população brasileira. O isolamento, que era visto como risco pelas empresas, se transformou em oportunidade. A Propz oferece soluções de relacionamento para varejo e serviços financeiros utilizando inteligência analítica e big data. “As pessoas começaram a usar os meios digitais de maneira produtiva. A quantidade de compartilhamento de conteúdo inteligente aumentou muito. Quem ficava restrito ao seu circuito de eventos ficou acessível e percebeu que conteúdos compartilhados gratuitamente não fazem com que as empresas percam dinheiro. O mesmo acontece com o comércio e o trabalho remoto. Eles funcionaram, portanto, não seremos mais como éramos até março. Os pequenos podem ter uma oportunidade porque, é claro, eles terão que mudar também, mas podem oferecer aquela experiência sensorial perto de casa, para a vizinhança, porque as pessoas estarão menos dispostas a enfrentar deslocamentos e aglomerações mas continuam querendo e precisando se encontrar”, avalia Nacaxe.

Autoria: Diário do Comércio