Ao longo desse ano a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) já anunciou três levas de cortes de bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado no Brasil, gerando um grande impacto na produção científica do país. 

No primeiro anúncio, realizado no mês de maio, foram bloqueadas 3.474 bolsas. Menos de um mês depois, em 4 de junho, a Capes anunciou o corte de 2,7 mil bolsas para os cursos com conceito nota 3. O último anúncio, feito no início de setembro, atingiu 5.613 bolsas e considerou até mesmo os cursos com alta nota de avaliação. Essas notas, que variam de 1 a 7, servem como referência para as agências de fomento nacionais e internacionais para a distribuição das bolsas.

Impactos a médio e longo prazo

Juntando os três anúncios de cortes, a Capes deixará de oferecer esse ano 11.811 bolsas. Essa medida, segundo a Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), impacta diretamente o sistema de pós-graduação, responsável por 90% da produção científica do país.

Segundo Mário Neto Borges, ex-presidente do CNPq, a crise econômica e o aspecto cultural são dois fortes fatores que levaram a essa situação. “Nós temos, entre outros, dois componentes que são muito fortes. O primeiro é cultural. No Brasil, a sociedade, o governo e os políticos ainda não valorizam a ciência, tecnologia, inovação e educação como deveria ser. A ciência ainda não é um valor para a sociedade brasileira e, portanto, na hora da dificuldade dos poucos recursos é exatamente nessa área que se cortam verbas. A recente crise econômica do país também prejudicou muito todos os investimentos que o Brasil fazia nas diversas áreas. Para você ter uma ideia, países como Coreia e Israel investem 4% do PIB em ciência, tecnologia e inovação, aí incluídos os investimentos em pós-graduação (mestrado e doutorado). Já o Brasil ainda está arranhando 1.1% do seu PIB, ou seja, ¼ em relação a esses outros países que estão usando a ciência, tecnologia e inovação como vetor para o desenvolvimento social, econômico e cultural”, explica Mário Neto.

Perguntado sobre o impacto dessa medida para o desenvolvimento do país, o ex-presidente do CNPq foi enfático: “Isso vai trazer um impacto muito grande porque quando você interrompe a formação de pesquisadores através do corte de bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado, você, além de não formar as pessoas necessárias nessa área para o desenvolvimento do Brasil, você também interrompe pesquisas que são importantíssimas para a solução de problemas brasileiros. A interrupção dessas pesquisas é extremamente prejudicial para o desenvolvimento do país, e, por consequência, para a formação de uma massa crítica que seria realmente importante para esse desenvolvimento”.

Acompanhe a entrevista completa com Mário Neto Borges no vídeo abaixo: