O mundo atravessa a maior crise sanitária e econômica dos últimos 100 anos – a pandemia de Covid-19. Isso, claro, atinge em cheio as relações entre os países. A doença surgida na China, ainda em dezembro do ano passado, leva pânico às populações não apenas pelo seu caráter sanitário – se já não fosse o bastante -, mas também porque pode reacender antigos ressentimentos e reativar espíritos belicosos que, se não estavam adormecidos, estavam, ao menos, sob algum controle.

Em uma eterna luta pelo lugar mais alto no pódio da economia mundial, Estados Unidos e China seguem subindo o tom ao longo da crise. O campo de batalha atual é o midiático e a China volta a ser alvo da desconfiança do Ocidente e de teorias da conspiração.

Para o professor da área de Estratégia Pública da Fundação Dom Cabral (FDC) Paulo Vicente, um novo cenário pode se abrir com o fortalecimento de blocos econômicos que não tinham grande expressão e até o surgimento de novos blocos.

“Estados Unidos e Brasil, assim como outros países, perceberam o quanto estão limitados e dependentes dos produtos chineses e o quanto isso é perigoso em tempos de crise severa. Nos últimos 40 anos, vivemos um processo de desindustrialização com as empresas transferindo os parques produtivos para a Ásia e, especialmente, para a China. Esse processo será revertido agora. Os EUA retiveram a chamada indústria militar no seu território, mas esqueceram de fazer o mesmo com a indústria de equipamentos médicos, por exemplo. Viram, agora, o tamanho do erro”, explica Vicente.

Nesse ponto o Brasil pode viver uma nova era de industrialização com a substituição de importações em moldes semelhantes ao que aconteceu entre as décadas de 30 e 80 do século passado, ou se articular como líder de clusters produtivos internacionais. Para que isso seja possível, porém, é necessária habilidade política institucional.

“O Brasil pode tirar proveito dessa situação se conseguir, por exemplo, que parte dessa produção que será repatriada pelos EUA venha para cá. É possível organizar e liderar hubs internacionais, mas isso exige uma condução profissional das negociações. Isso deve ser feito pelos profissionais de carreira, são eles que têm chance de conversar e fazer acordos sérios. Podemos liderar o surgimento de uma nova zona de livre comércio nas Américas, por exemplo. Ter o surgimento de novos blocos comerciais a partir, especialmente, da necessidade de defesa. No passado, a Alca (Aliança para o Livre Comércio nas Américas) foi abortada porque os países da América Latina não confiavam nos EUA. O mesmo aconteceu com o Mercosul em relação ao Brasil”, destaca o professor da FDC.

Enquanto as condições políticas para uma futura reindustrialização são engendradas, os empresários brasileiros também se organizam. Segundo o gerente de desenvolvimento de negócios da Universal Robots no Brasil, Bruno Zabeu, quando o isolamento social teve início, fábricas inteiras tiveram sua produção paralisada de um dia para o outro. Isso fez com que planos de digitalização e automação previstos para um futuro não tão próximo fossem antecipados e que quem nunca tinha pensado nisso antes, buscasse consultoria.

A Universal Robots é uma empresa dinamarquesa líder na produção de braços robóticos industriais colaborativos, com escritórios regionais nos EUA, Alemanha, França, Espanha, Itália, Reino Unido, República Checa, Polônia, Hungria, Romênia, Rússia, Turquia, China, Índia, Cingapura, Japão, Coreia do Sul, Taiwan, México e Brasil.

“Quando o isolamento começou, eu estava com a expectativa que o trabalho diminuísse, mas foi ao contrário. Na indústria a mão de obra é algo relevante para a produção e como as indústrias vão fazer se não tem mais gente no chão de fábrica? Daí a importância de uma automação inteligente. A robotização foi subdimensionada no passado e agora não tem volta. No contexto que temos hoje, tem que ser uma automação simples, modular, com baixo risco e respeitando o fluxo de caixa”, pontua Zabeu.

A automação é sempre compreendida como uma alavancadora da eficiência e dos níveis de produtividade, mas de outro lado, também como um processo que elimina postos de trabalho. E é essa, justamente, uma das maiores preocupações dos governos pelo mudo: preservar empregos. Como, então, juntar as duas pontas – garantir a capacidade produtiva das empresas e evitar demissões – no mundo que surge pós-Covid-19? Para o especialista, embora seja uma questão difícil de ser enfrentada, a solução está nas mãos das lideranças empresariais.

“Historicamente, as revoluções industriais levaram a um grande número de desempregados em um primeiro momento, mas também criaram na outra ponta uma leva de empregos mais qualificados. Pesquisas mostram que o número de empregos criados é maior do que os extintos, o problema é que o desemprego atinge aqueles menos qualificados, com menos condições de ascenderem a cargos melhores. Aqui, o RH tem um desafio e missão fundamentais. O processo de automação, por mais rápido que seja, não acontece do dia para a noite. A empresa pode tecer um plano de aproveitamento da mão de obra, oferecendo oportunidades e qualificação. Se ela já tem um colaborador dedicado, que compreende a cultura da empresa, porque não traçar uma trilha de desenvolvimento para ele junto com a chegada da tecnologia? As máquinas não funcionam sem os seres humanos, mas exigem pessoas mais qualificadas, que desenvolvam suas habilidades mais sofisticadas, como criatividade e raciocínio lógico, liberando-as das atividades repetitivas e de baixo valor agregado”, completa o gerente de desenvolvimento de negócios da Universal Robots no Brasil.

Autoria: Diário do Comércio